Publicitário, pobrecitário e publicituto.

19 05 2009

Olá pessoas!

Recebi um e-mail do Walter Bezerra para postagem de um artigo dele. “O artigo foi publicado no início do mês de Março na Gazeta. No entanto, por conta de ajuste para adequação ao formato no padrão da sessão Opinião, ele foi sacrificado pela metade. Ei-lo, portanto, na íntegra, para ser publicado no Ciclo.” Segue abaixo. 🙂

______
Walter Bezerra*


Elejo como público-alvo desse artigo os aspirantes, estudantes e formando em publicidade, com o intuito de contribuir para que eles não incorram nos erros, vícios e condutas equivocadas que vêm descaracterizando o negócio da propaganda.

Antes de chegar ao objetivo principal do artigo, vamos discorrer um pouco sobre os mitos que se formaram em torno da profissão. A publicidade não é uma atividade de glamour como se dissemina por aí. O mercado publicitário local é muito restrito e a remuneração dos profissionais não tem lá esses atrativos. Alagoas já produz publicidade de qualidade. Mas o boom publicitário ainda não desembarcou na Terra dos Marechais. A verba publicitária – a convencionada e a emergente –  é disputada por poucas agências, incluindo-se aí as agências imigrantes, que se nutrem de belas fatias do bolo, mas, como não têm estrutura operacional local, não utilizam a nossa mão-de-obra especializada.

A demanda de novos profissionais, oriundos das faculdades, cresceu. E a capacidade de absorção desses profissionais pelas agências estacionou. E está longe o dia em que os departamentos de marketing das empresas vão abrir espaço para eles.

Eu costumo dizer que existem publicitário, pobrecitário e publicituto. Esse é o objetivo principal supracitado.

O publicitário é um profissional nutrido de “n” referências culturais. Discute Patativa do Assaré com o mesmo nível de conhecimento que tem de Rimbaud. Explana sobre a obra das rendeiras do Pontal com a mesma desenvoltura que fala de Van Gogh. Cita Luiz Gonzaga com a mesma intimidade que tem com Paco de Lucia. Comenta Nise da Silveira com a mesma eloqüência que versa sobre Marquês de Sade. Conhecimento geral não faz mal a ninguém. E ser eclético é uma exigência da profissão.

Publicitário não é gênio, mas ser publicitário é genial. Como tem feeling e conhecimento mercadológico, o publicitário é capaz de ignorar o briefing do cliente e sair por outras tangentes, criando novas oportunidades e conceituações. Graça à sua sensibilidade, consegue renovar os velhos clichês, modificar hábitos e lançar novas ideias.

O publicitário sabe da importância do seu papel institucional. Faz publicidade para gerar resultados de venda e aumentar o share market de suas marcas.Consciente de sua identidade vocacional , sabe que não é artista. Aliás, quem diz que publicidade é arte faz propaganda enganosa. Publicidade – embora requer inspiração – é técnica, pesquisa, estratégia, planejamento

O pobrecitário é aquele que ainda não se deu conta de que não é do ramo. Não tem poder de síntese, não sabe conceituar, não sabe criar à luz da semiologia. Mesmo assim continua a se enganar e a convencer, aos míopes em comunicação, que é do ramo. Conhecer informática e dominar as ferramentas do design apenas não são pré-requisitos para se exercer a atividade.  Escrever bem, dominar a flor do Lácio, tão-somente, não significa estar preparado para a profissão. Muitos dariam excelentes engenheiros, competentes arquitetos e renomados literários (Drumond também foi aprendiz de feiticeiro, mas, sentindo-se um estranho no ninho, desistiu, deixando o ofício para nós, poetas menores que somos.

O pobrecitário é excessivamente vaidoso. Quando faz algo palatável, pseudo-artista que é, pensa logo que criou a Mona Lisa. Como não é criativo, o indivíduo “chupa” uma idéia e, meio sem graça, parodiando  Lavoisier, ainda argumenta:”Em publicidade, nada se cria, tudo se copia.”. É fundamental convencionar-se que criatividade não advém das técnicas acadêmicas. Não se aprende em laboratórios. É uma questão de vocação.

O publicituto – o mercenário da profissão – é desprovido de discernimento. Não tem ética. O cliente encomenda uma solução para um singelo  problema de comunicação. Sem escrúpulos – e sem piedade -, o publicituto sugere uma campanha grandiosa, endinheirada, quando bastaria uma simples ação on-line como, por exemplo, um e-mail marketing para solucionar o problema, por um valor relativamente mais  inferior.

Atingir o público-alvo, para o publicituto, é sair por aí dando tiro no escuro e tiro de canhão em tudo que é consumidor. Em seu glossário, não existem as expressões propaganda dirigida e otimização de verba. A palavra de ordem é pulverizar. Se a verba é governamental, aí é que não existe lisura mesmo. Afinal, criar não é preciso, o  necessário é faturar.

O publicituto, indiferente à moralização da atividade publicitária, muitas vezes até avaliza a propaganda abusiva e enganosa, contrariando as normas-padrão e os preceitos éticos das entidades envolvidas com o setor, como o Conar, a Fenapro, a Abap e o Cenp, entre outras. Quando é da sua conveniência, ele negocia até 99% de desconto nas concorrências públicas e disponibiliza humilhantemente a comissão de agência só para ganhar contas.

Portanto, caros aspirantes e formando em publicidade, no exercício da profissão, desçam do salto alto, desprezem a avareza, esqueçam o ego. Se faltar boas idéias, inspirem-se no apelo criativo do vendedor ambulante: “Olha a macaxeira!!! Me cheira, me cheira, me cheira…”.

(*) É diretor de criação.

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: